6 + 3 passos para transformar a cultura do vinho no Brasil

Em maio de 2017 publiquei um artigo que gerou bastante bafafá sobre como melhorar a expansão do consumo do vinho entre nós, brasileiros. Otimista, o artigo era baseado em dados e registros de pesquisas que apontavam um nítido crescimento. O título era 6 PASSOS PARA TRANSFORMAR A CULTURA DO VINHO NO BRASIL.

Embora ainda raras, as pesquisas no universo do mercado de vinhos aqui no Brasil também enfrentam um problema de números oficiais. O que temos hoje (ainda) é um grande emaranhado estatístico. Em vez de um Banco de Dados, temos um grande Bando de Dados que é como eu costumo chamar na minha área de Engenharia.

Decidi refazer o artigo, tendo em vista o previsto x realizado x minhas opiniões de maio de 2017 para cá (junho de 2022).

Usei como introdução novos dados atualizados (quem tem pressa, recomendo descer a barra até o meio e quem tem preguiça recomendo que desista da leitura porque o texto está bem grande).

Vamos lá!

Mesmo com a crise, o brasileiro continua consumindo mais vinho. E não falo isso porque sou uma emocionada; dados apresentados revelam que o brasileiro não só aumentou a litragem, como também mudou hábitos, sobretudo durante o período de isolamento social.

Ao contrário do mundo, o Brasil não consumiu menos vinhos com as medidas restritivas. Associado à família, à comida em casa e ao lazer, o consumo nas residências aumentou e o vinho se tornou A Bebida da Quarentena.

Resumindo: na contramão do mundo, nós descobrimos que beber vinho em casa é bom.

OS DADOS QUE REALMENTE IMPORTAM

> Dos 83 milhões de consumidores de vinho no país, 46% tomaram a bebida pelo menos uma vez por semana, o que representou, em 2020, 2,78 Litros de vinho por pessoa.

Segundo números da OIV, ainda em 2020, somando-se Vinhos de Mesa (65%) e Vinhos Finos nacionais e importados (35%), houve um aumento animador se comparado com o ano pré-pandemia, 2019 (era 2,13 Litros).

>O Brasil registrou o maior crescimento de consumo dentre os países associados a OIV durante o período.

>As vendas online tiveram um aumento de 30% entre 2019 e final de 2020.

> Ainda otimista e descartando o fator isolamento, o consumo de Vinhos Finos em 2021 saltou incríveis 100% em relação ao ano anterior à pandemia, 2019! 100%!!!

E não vejo tanta gente destacar isso. Enfim…

Logo, podemos afirmar que o brasileiro ama vinhos sim!

O que falta é a cultura do vinho, sobretudo a do Vinho Fino.

(AQUI QUEM PULOU O TEXTO CONTINUA)

E como estimular a cultura de um produto que muitas vezes vai contra o paladar doce do brasileiro?

O movimento que ocorre no Brasil hoje é de queda na produção de Vinhos de Mesa e aumento de Vinhos Finos. Isso significa que alguns brasileiros estão deixando o bom e velho garrafão de lado e partindo para novas experiências.

Aumento mesmo com toda a crise econômica? Sim.

A onda crescente da produção das Cervejas Artesanais já indicava essa tendência. O brasileiro está compreendendo o real significado de “beber menos, mas beber melhor” e fazendo aos poucos uma sutil substituição.

Então, na minha humilde opinião, alguns dos fatores (não estão em ordem de importância) que contribuem para essa “transição” do paladar do brasileiro, são os seguintes:

Foto por August de Richelieu em Pexels.com

9 PASSOS PARA AMPLIAR E TRANSFORMAR A CULTURA DO VINHO NO BRASIL

1 – Enoturismo – Dificilmente alguém que realiza um tour por vinícolas do Sul do Brasil, que faz um passeio à Argentina ou Chile, voltará tomando somente vinhos suaves ou vinhos de mesa.

Pode ser que o hábito não se instaure tão rapidamente, mas a descoberta de aromas e de que paladar é algo que se treina, estimula o consumo de novas experiências.

As visitas permitem não só perceber como a produção de vinhos finos é trabalhosa e minuciosa, mas também como muitas pessoas ficam encantadas com o resultado desse processo.

É um bom passo para começar a desconfiar do próprio paladar e o bebedor iniciante adora descobrir isso!

2 – Eventos de estímulo e degustações voltadas ao consumidor final – Em eventos, assim como em viagens, o consumidor entra em uma espécie de encanto. Ele está tendo a chance de degustar, de experimentar…vejam bem: ele não está em um bar, pagando por uma taça ou uma garrafa e vendo a fatura do cartão aumentar: ele está livre para o consumo, participando de uma experiência que vai além da conta do restaurante.

Tudo isso influencia! O consumidor se sente praticamente um privilegiado por estar ali, tendo a chance de conhecer e provar.

Sem contar as conversas com produtores, convidados e visitantes, que sempre geram mais aprendizados. O vinho até então distante, se aproxima.

Provas de vinhos e degustações periódicas, como as realizadas pela Serrado Vinhos , Cave Nacional e a distribuidora Wineout aqui no Rio, têm garantido essa experiência a um público novo, que começa a conhecer as benesses do vinho. Assim como a própria Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-RJ) que incluiu em seu calendário, eventos online e presenciais voltados ao público iniciante.

Me restringindo apenas ao Rio, que é a minha cidade, eventos maiores como o Circuito do Vinho, ViniBraExpo e Rio Wine Food Festival (RWFF) são iniciativas diferentes, mas que também incentivam a difusão da cultura do vinho. Esses três são bons exemplos a serem seguidos por outras cidades:

O primeiro, pioneiro por superar as fronteiras da zonas mais privilegiadas da cidade e levar o vinho à Zona Norte, democratizando o consumo por meio de taças com música ao vivo e barraquinhas de comida.

Por sua vez, a ViniBraExpo por apresentar o que há de melhor em termos de Vinhos Finos Nacionais, sem contar as Master Classes espetaculares.

E a tradicional RWFF que acontece desde 2013 e se espalha pelos 4 cantos da Zona Sul da cidade com dezenas de atrações.

Degustações e eventos servem como oportunidade para uma expansão do paladar que, no final das contas, resulta em uma expansão de mercado.

Foto por Taha Samet Arslan em Pexels.com

3 – Ampliação da linha de vinhos de entrada dos produtores a um bom custo-benefício – O iniciante nos vinhos finos não deveria ter um bolso amplo para ampliar o seu paladar, uma vez que não é assim em culturas mais enófilas que a nossa.

O brasileiro sente falta de um bom vinho, com preço mais acessível, seja ele em garrafa com rolha sintética ou screw cap, em lata, em bag in box. Não adianta divulgar, promover eventos, degustações, sem bons preços para o consumidor final.

É claro que isso afeta mais as vendas do pequeno produtor e das produções nacionais, pois na medida em que estimulamos o consumo interno e não oferecemos um bom custo-benefício, as portas ficam abertas para vinhos mais baratos de larga escala, como algumas marcas importadas do Chile e da Argentina.

É o que acontece com as gigantes Wine e Evino, que viram seus números atingirem patamares nunca antes alcançados.

São empresas que ampliam o consumo do vinho porque acreditam, assim como eu, que vinho é para todo mundo. Porque ele é. E não interessa se o vinho é chileno, australiano, chinês, brasileiro ou paquistanês.

Se a Wine tem o maior clube de vinhos do mundo, como alguns ainda insistem em afirmar que o brasileiro não bebe vinho?

Já está mais que na hora de reformularmos essa frase para: o brasileiro consome pouco vinho porque não tem acesso e estímulo. Ou ainda: o brasileiro anseia por consumir vinho, só precisa ter acesso. Reflitam.

4 – União entre todos os personagens da cadeia (produtores, distribuidores, revendedores e, até mesmo consumidores) para cobrar do governo uma redução dos impostos. A informação de que, em uma garrafa de vinho, mais da metade é dado nas mãos do governo, não deveria ser só de quem conhece e estuda o mundo dos vinhos, mas de toda a população.

Unidos, as propostas de contra partidas ao governo se tornariam mais fortes e teriam mais notoriedade.

Não vejo outro modo de alcançar a comoção e o engajamento popular, que não seja por meio de campanhas de conscientização. Digo isso porque sei que existe toda uma força social – a qual eu considero corretíssima – de advertir principalmente os jovens quanto ao uso indiscriminado de bebidas alcoólicas. A questão é que o vinho não pode ser reduzido a esse único aspecto. Desculpa, mas não pode.

Vinho tem história, faz parte de diversas culturas, bem consumido é até mesmo saudável e recomendado por médicos. Resumi-lo ao aspecto apenas de bebida alcoólica, seria como dizer que esporte faz mal porque as pessoas se machucam.

Não é assim no resto do mundo. Vinho é vinho e faz parte da rotina. E nós precisamos dessa cultura, dessa compreensão, pois ela é a cabeça de uma cadeia que envolve além de empregos diretos, os indiretos – com reflexos nas áreas afins como: turismo, gastronomia, educação, logística.

5 – Parceria com programas de televisão e mídias sociais – embora a internet já seja hoje o veículo no qual o brasileiro passa a maior parte do seu tempo, a televisão de massa e programas como os de culinária, possuem um fortíssimo apelo. O vinho naturalizado em novelas, filmes, séries, realities, assim como fazem os norte-americanos, ganhou espaço nos últimos anos, mas ainda não é suficiente.

O vinho precisa deixar de aparecer nas telas como sendo a bebida dos vilões (sim, os vilões aparecem bebendo espumante, enquanto os mocinhos tomam cerveja descontraídos no bar) e passar a ser a bebida dos personagens divertidos, dos mais novos.

6 – Inclusão e representatividade em campanhas e eventos – O vinho não tem mais somente a cara do velho, branco, rico que joga golf.

O vinho está (amém Senhooorrrr!) cada dia mais plural e diverso: pretos, LGBTQI+, moradores de comunidade, PcDs, TODOS bebem vinho e quem não enxerga isso está FORA. Então, campanhas e eventos precisam ser INCLUSIVOS.

Se a sua marca não é, sugiro um estudo de branding urgente! Inclusive pode me contactar no joanarangel.com.

7 – Estímulo à presença de Sommeliers em bares e mercados – prática adotada por exemplo pela rede Hortifruti e pelo mercado Prix, na qual o consumidor pode se informar sobre aspectos do vinho, e, com isso, aumentar as chances de se sentir satisfeito com uma boa compra.

Se a porta de entrada do consumidor no vinho ainda é o supermercado, oras, é lá que devem estar concentrados boa parte dos esforços para a venda!

Existem alguns casos de bares e restaurantes, nos quais a casa não possui um Sommelier próprio, mas dedica um tempo treinando seu pessoal para uma melhor demonstração e sugestão de produtos. Tive muitas vezes essa experiência em restaurantes aqui do Rio, perguntando se eles tinham Sommelier na casa. Muitos me disseram que não, mas que recebiam treinamento. É uma opção.

Foto por Gustavo Fring em Pexels.com

8 – O vinho precisa CHEGAR ATÉ O CONSUMIDOR para ser comprado – Se o consumidor nem sabe que o vinho existe ou não encontra, como vender?

Não dá para fazer mágica. Sem divulgar, o vinho não aparece; e sem distribuir, o vinho não chega.

Se aqui no Rio eu tenho dificuldade em encontrar rótulos, faço ideia de quem vive em cidade de interior. São essas pessoas que “os entendidos” querem que bebam vinho? Como?

Uma forma de propor contra partidas ao governo, como citado no item 4, é por meio de projetos para criação de Centros de Distribuição. Unidos, produtores nacionais poderiam ter ao menos 4 pontos pelo país por onde o vinho escoasse e chegasse até a casa do consumidor.

E MUITO IMPORTANTE: como os dados mostraram acima, o brasileiro descobriu o prazer de beber vinho em casa. Sendo assim, comparar valores encontrados em sites, em mercados, em importadoras com os praticados em restaurantes é inevitável.

Não subestimem o consumidor. Qualquer google permite saber quando o restaurante está cobrando valores exorbitantes.

Sabemos dos custos envolvidos em se oferecer vinhos em uma carta: taças, treinamento… mas também sabemos que em um restaurante a adega não pode estar querendo lucrar mais que a cozinha, atividade fim. Se isso acontece, melhor revisar o plano de negócios. Também pode entrar em contato comigo nesse caso: joanarangel.com

9 – Os profissionais do vinho precisam entender de uma vez por todas que o consumidor de vinho suave também é consumidor – Cansei, caaaannnsei de ver em evento cliente procurando vinho suave ou demi-sec e não ter ninguém para vender. Por que? Preconceito?

Preferem desperdiçar venda a aguçar a curiosidade do cliente servindo um demi-sec e convidando-o a provar novas opções.

Eu jamais perderia esse cliente em potencial. O bebedor de vinho suave de hoje é o bebedor de vinho seco amanhã, todos sabemos disso.

Quem deseja transformar a cultura do vinho no Brasil precisa aproximar os interessados e não afastar.

Vocês fazem ideia de quantos traumatizados deixaram de consumir Vinho Fino porque se sentiram discriminados ao solicitar um “vinho mais docinho e menos rascante”? Pois procurem saber. Quando estiverem diante dessas pessoas, conversem, troquem ideia. Vocês irão descobrir quantos não compram Vinho Fino por se sentirem intimidados.

Como podemos ver, não faltam possibilidades para que a cultura dos Vinhos Finos se supere. Com isso, não desejo que o antigo hábito familiar dos garrafões, dos vinhos compartilhados em caneca, desapareça. Longe de mim! Até porque, em minha juventude, era muito gostoso tomar uma caneca de vinho com meus amigos. Comecei assim e acredito que muita gente também! Caminho sem volta!

O que eu acredito é na transformação e no desenvolvimento do paladar.

E você, o que acha que poderia ser feito para estimular a cultura do vinho em nosso país? Vamos bater um papo? Me mande um e-mail: joana@joanarangel.com ou fale comigo pelo Instagram: @joanarangelll

Bjs!

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